A linguagem não é um espelho passivo da realidade; ela é uma força viva, estruturante e profundamente política. Na psicologia clínica, na psicanálise e nas ciências da educação, cada termo que escolhemos para nomear o sofrimento humano carrega consigo uma carga histórica que reverbera na subjetividade dos indivíduos e na estrutura da sociedade. Quando nomeamos uma dinâmica disfuncional, nosso objetivo primordial é iluminar o que estava oculto, promover a cura e libertar o sujeito de amarras invisíveis. No entanto, o que acontece quando o próprio termo utilizado para denunciar uma opressão acaba, por uma infelicidade tradutória, alimentando outra?

Como psicólogas e psicólogos comprometidos não apenas com a saúde mental individual, mas com a justiça social e a erradicação de todas as formas de discriminação, somos frequentemente convocados a olhar para o nosso próprio arcabouço teórico com lentes críticas e atualizadas. É sob essa perspectiva de constante refinamento ético que se torna urgente debater o termo historicamente conhecido em nossa literatura como “pedagogia negra”.

O Pioneirismo inquestionável de Katharina Rutschky e Alice Miller

Para avançarmos nessa reflexão, é fundamental fazer um justo e profundo reconhecimento histórico.

O trabalho da socióloga alemã Katharina Rutschky, que em 1977 cunhou a expressão Schwarze Pädagogik, e o subsequente amparo teórico e clínico dado pela psicanalista Alice Miller, especialmente em sua obra-prima “No Princípio Era a Educação” (1980), foram revolucionários. Ambas as autoras demonstraram uma coragem intelectual extraordinária ao romperem o pacto de silêncio que protegia a violência parental na sociedade ocidental.

Até a publicação de seus estudos, métodos de criação baseados no açoitamento, na humilhação sistemática, no isolamento, na invalidação emocional e no apagamento da subjetividade infantil eram amplamente aceitos, endossados por manuais pedagógicos e justificados pela moral religiosa e social. Rutschky e Miller realizaram um trabalho heróico de elucidação e conscientização ao demonstrarem que essa engrenagem cruel operava sob uma racionalização perversa: o agressor convencia a criança (e a si mesmo) de que a violência física ou psicológica era aplicada “para o próprio bem” da vítima.

A tese de Miller permanece como um dos pilares mais brilhantes da psicologia do desenvolvimento: ao ser violentada por aqueles de quem depende vitalmente para sobreviver, a criança não pode processar o cuidador como mau. Para se salvar do colapso psíquico, ela internaliza a culpa, normaliza o abuso (em uma dinâmica que hoje podemos aproximar do conceito de gaslighting) e replica essa violência na vida adulta, perpetuando o trauma através das gerações. O mérito dessas autoras na denúncia desse ciclo é eterno e inalienável. A essência de suas descobertas clínicas continua sendo uma ferramenta indispensável para qualquer terapeuta na atualidade.

Imagem de Silvio Ross por Pixabay

Uma tradução infeliz e o contexto europeu

Se a essência teórica é irretocável, a transposição do termo para a língua portuguesa sofreu de uma profunda infelicidade. No contexto original alemão do século XX, a escolha da palavra schwarze (preta/negra) obedeceu a uma metáfora eurocêntrica tradicional, que associava a escuridão ao sombrio, ao oculto, ao subterrâneo e ao que é feito nas sombras. Não havia, na intenção primária das autoras, um debate sobre relações étnico-raciais ou uma tentativa deliberada de estigmatizar populações historicamente racializadas. Elas buscavam um adjetivo que denotasse a ausência de luz naquelas práticas educativas.

Contudo, ao traduzirmos literalmente Schwarze Pädagogik como “pedagogia negra” para o português, importamos uma metáfora que, na realidade brasileira e de outros países colonizados, atua como um reforço direto do racismo estrutural e linguístico. Passamos séculos associando sistematicamente a palavra “negra” ou “preta” a tudo o que é pejorativo, ilícito, violento ou destrutivo (como em expressões nocivas como “lista negra”, “ovelha negra” ou “mercado negro”). Perpetuar o uso de “pedagogia negra” para descrever o sadismo e o abuso infantil significa continuar utilizando a negritude como o sinônimo universal do mal.

Além disso, essa tradução gera um severo conflito conceitual na contemporaneidade. Hoje, graças ao avanço dos movimentos sociais e de intelectuais como bell hooks, o termo Pedagogia Negra Crítica ou Pedagogia de Matriz Africana possui um significado diametralmente oposto e profundamente luminoso: refere-se a práticas educativas de libertação, de resgate da ancestralidade, de fortalecimento da identidade e de combate direto ao racismo. Portanto, manter o uso do termo antigo para designar violência parental gera uma confusão epistêmica que desserve tanto à psicologia quanto à luta antirracista.

Proposta de substituição: Pedagogia tóxica ou Pedagogia repressiva

Diante desse cenário, a modificação do vocabulário técnico não é um capricho estético; é um imperativo ético. Para mantermos a fidelidade absoluta à brilhante engrenagem psíquica descoberta por Rutschky e Miller, mas sem compactuar com o racismo linguístico, propomos a adoção e a disseminação de dois termos perfeitamente alinhados com a psicologia moderna:

    1. Pedagogia Tóxica: Esta expressão é clinicamente precisa e evoca imediatamente a ideia de um veneno psicológico que é injetado no psiquismo em desenvolvimento. O termo desloca o foco de uma metáfora de cor para a natureza da ação, explicitando que o comportamento do cuidador envenena a autoestima, a autoconfiança e a integridade da criança.

    1. Pedagogia Repressiva ou Coercitiva: Esta alternativa foca na mecânica do método analisado pelas autoras. O objetivo central daqueles manuais dos séculos XVIII e XIX era reprimir a individualidade, quebrar a espinha dorsal da vontade da criança e forçar a submissão cega através da coerção.

Ambos os termos salvaguardam o núcleo da teoria original, comunicam o fenômeno com total clareza técnica e eliminam qualquer viés racial da nomenclatura.

Linguagem e ética profissional: O dever de atualização do vocabulário técnico

Pode parecer, à primeira vista, uma ousadia ou até mesmo uma petulância que profissionais de fora dos grandes centros europeus sugiram a alteração de uma nomenclatura consagrada por grandes pensadoras. No entanto, a história da ciência nos mostra que o verdadeiro respeito aos grandes mestres não reside em repetir suas palavras como dogmas imutáveis, mas em atualizar suas descobertas para que continuem servindo à emancipação humana.

Conclamamos, portanto, as autoridades acadêmicas, os pesquisadores, os educadores, os conselhos de psicologia e a sociedade civil a atualizarem formalmente esse termo em suas produções, aulas, palestras e manuais. Não se trata de apagar a memória de Alice Miller ou Katharina Rutschky; pelo contrário, trata-se de honrá-las, garantindo que suas teses inovadoras cheguem às novas gerações livres de qualquer ruído preconceituoso. A ciência psicológica é um organismo vivo, e sua capacidade de revisar seus próprios conceitos em prol da dignidade humana é o que a mantém relevante e transformadora.

As repercussões da linguagem na Pedagogia e no cotidiano

As palavras que escolhemos no topo da pirâmide acadêmica inevitavelmente escorrem para o cotidiano das salas de aula, dos consultórios e das dinâmicas familiares. Se continuarmos a chancelar a associação entre a palavra “negra” e o abuso infantil na formação de novos professores e psicólogos, estaremos involuntariamente autorizando a manutenção de preconceitos inconscientes que afetam diretamente o acolhimento de crianças negras nas escolas e na sociedade.

A pedagogia e a psicologia devem andar de mãos dadas como ferramentas de libertação integral. Ao adotarmos termos como Pedagogia Tóxica ou Pedagogia Repressiva, nós refinamos a nossa capacidade de diagnosticar a violência contra a infância ao mesmo tempo em que fortalecemos o nosso compromisso com uma sociedade antirracista. Que tenhamos a sensibilidade e a coragem de Alice Miller para denunciar o abuso, e a sabedoria do nosso tempo para fazê-lo através de uma linguagem que acolha, respeite e liberte a todos.

Imagem por Pixabay

Um convite à reflexão coletiva: A linguagem que acolhe o trauma infantil e promove a equidade na escola

Quando olhamos para o ambiente escolar, compreendemos que a escola e a clínica são espaços sagrados de acolhimento, cuidado e desenvolvimento da vida. É por valorizarmos profundamente o bem estar de cada criança que se torna tão importante olharmos juntos, com sensibilidade e coragem, para as palavras que escolhemos em nossas práticas e manuais pedagógicos. Quando termos que carregam vieses racistas (como a expressão histórica “pedagogia negra”), entram no espaço educativo para descrever o abuso e a violência familiar, deparamo-nos com um desafio complexo que nos convida a pausar, refletir e buscar caminhos mais coerentes com nossos valores de proteção e respeito.

Nossa necessidade comum, enquanto psicólogos e educadores, é garantir que a dor da infância seja vista, legitimada e tratada com a gravidade que ela exige. As crianças se traumatizam profundamente com o açoitamento, a invalidação e a humilhação psicológica; essas marcas deixam cicatrizes reais em seu desenvolvimento emocional e cerebral. Para acolher esse sofrimento com eficácia, precisamos nomeá-lo com clareza clínica. Manter uma nomenclatura que usa uma identidade racial para ilustrar a crueldade humana pode acabar desviando nosso olhar do que realmente importa: a urgência de proteger a infância e curar o trauma.

Esse cenário nos convida a exercitar a empatia com as nossas crianças, especialmente as pretas e pardas, que necessitam encontrar na escola um território seguro, livre de ruídos que afetem sua autoestima ou seu sentimento de pertencimento. Quando a linguagem associa a palavra “negra” às práticas parentais abusivas, criamos uma barreira invisível para o letramento antirracista que todos nós, com tanto esforço, tentamos construir diariamente em sala de aula. Ao mesmo tempo, corremos o risco de descaracterizar a verdadeira Pedagogia Negra — um movimento luminoso, fundamentado no afeto, na valorização da ancestralidade e na equidade racial.

Este não é um convite para culpar o passado ou apontar erros na literatura clássica, mas sim um chamado empático e assertivo para atualizarmos nossas ferramentas de comunicação. Podemos caminhar juntos em direção a termos como Pedagogia Tóxica ou Pedagogia Repressiva, que descrevem a ação disfuncional do cuidador sem ferir a identidade de ninguém. Convidamos calorosamente os pesquisadores, os conselhos de classe, as direções escolares e os professores a abraçarem essa transição linguística. Levar o trauma infantil a sério e construir um ambiente escolar verdadeiramente inclusivo é uma construção coletiva, que começa no cuidado com as palavras que escolhemos para educar e curar.

Autora
Soraya Rodrigues de Aragão
Psicóloga, Psicotraumatologista, Expert em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde. Autora em 4 livros publicados. Escritora em vários portais, jornais e revistas no Brasil e exterior.

Nosso Instagram

Marcar uma Consulta

error: O conteúdo está protegido!!!