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Na terapia do Esquema, criada por Jeffrey Young, entende-se por Esquema de Inibição emocional, a crença de que a pessoa precisa inibir suas emoções, sentimentos e “impulsos” como estratégia de enfrentamento para lidar com as circunstâncias da vida. Deste modo, a pessoa tem dificuldade em expressar, comunicar e expor seus sentimentos, o que traz consequências negativas em suas relações interpessoais, impedindo-a de aprofundar-se nestas relações, principalmente nas afetivo-conjugais.

Foto de Liza Summer

Dificuldades ocasionadas pela Inibição Emocional

Pessoas com este esquema ativado, dificilmente dirá para seu parceiro que o ama ou que ele é importante em sua vida. A pessoa será fria, pois aprendeu que esta é a forma funcional ou adequada de comportar-se. Contudo e na grande maioria das vezes, pessoas com inibição emocional perdem muitas oportunidades na vida, como conhecer pessoas, fazer novas parcerias, ter e aprofundar-se num relacionamento; ter e manter uma promoção profissional.

Este comportamento advém do medo de perderem o controle de seus “impulsos” e consequentemente de serem julgadas ou mesmo punidas. Existem muitas formas de punição social, como a ridicularização e a exclusão, por exemplo, o que estas pessoas evitam a todo custo. Não menos comum é a invalidação de sentimentos como o clássico: “engole esse choro”.

Pais e cuidadores podem ativar o esquema de Inibição Emocional

Pessoas com Esquema de Inibição Emocional tiveram pais ou cuidadores que, embora fossem presentes fisicamente, eram emocionalmente ausentes, ou seja, frios, distantes, rígidos ou mesmo invalidantes e punitivos.

Neste caso, a criança não tinha liberdade de expressão, ficando comprometida em sua criatividade, imaginação e espontaneidade. Por exemplo, menino não pode brincar de casinha ou menina não brinca de caminhão ou de pipa. A brincadeira tem uma funçao importante, pois antecipa os papéis sociais que no futuro a criança irá exercer. Ao lavar uma louça ou trocar as fraldas do filho, um homem ajudaria a vida de sua esposa no puerpério e ainda estaria participando ativamente de sua paternidade e de cada fase da sua família não se tornando tão distante. Além de que, isto não interferiria absolutamente em sua orientação sexual, que sempre vale a pena corroborar que é uma escolha legítima de cada um. Sendo assim, porque um menino nao poderia brincar de casinha, antecipando através do brincar sua responsabilidade ativa como futuro pai e marido?

Infelizmente, pais e professores, com a melhor das intençoes (não são todos!) também podem ativar esse esquema, tirando a espontaneidade e destruindo a imaginação das crianças. E caso não se faça o que foi dito, podem inclusive ser bastante punitivos.

Lembro-me que, quando tinha seis anos e estava no maternal, um dia, para atividade, a professora apresentou uma imagem de um cachorro para a turma colorir. Ao invés de impulsionar a criatividade das crianças, ela disse que somente poderíamos pintar o cachorro com cores de cachorro: amarelo, marrom ou preto. Eu queria o meu cachorro lilás e outras crianças queriam de outras cores também. E caso não pintássemos da cor determinada, seríamos punidos com a apresentação dos desenhos afixados no flanelógrafo em primeira evidência como forma de retaliação. Foi o que aconteceu comigo, que antes de pintar o cachorro todo de lilás, perguntei se poderia ao menos pintar as patinhas, o que foi negado.

Foto de Ksenia Chernaya

O que desejamos para nossas crianças: formação ou formatação?

O questionamento é: até que ponto a imposição de regras sem questionamento seria benéfica para a formação de uma criança em uma sociedade que exige cada vez mais criticidade? O que estaríamos formando: criança-robô, criança como um programa de computador pré-formatado? O que desejamos de nossas crianças: formação ou formatação? Existem outros e muitos contextos em que o ensino de regras sociais seriam bem mais eficientes. Principalmente se for aquela que não destrua a espontaneidade da criança que deseja ser criança e que necessita se expressar, principalmente se for através do desenho ou da pintura, por exemplo.

Então, para uma criança em formação, essa punição em mostrar a todos o “trabalho mal feito” ativaria um esquema de defectividade/vergonha, pois crianças muito pequenas não possuem o crivo da racionalidade para entender que os pais e os professores também tem suas limitações. O esquema de defectividade/vergonha será abordado em outro texto. Apresentei o relato em questão objetivando contextualizar que muitas vezes não são somente os pais que podem invalidar as crianças, mas também pode ocorrer em outros contextos, como o escolar. Pior ainda quando há a invalidação por parte de ambos.

Por não expressarem suas emoções e agirem de maneira racional, pessoas com inibição emocional terão dificuldade em reconhecer, nomear e lidar com seus estados emocionais, características muito presentes na Alexitimia. Deste modo, constata-se que pessoas alexitímicas poderiam sim ter esse esquema ativado. O outro lado da moeda é o comportamento por hiperrcompensação, ou seja, quando a pessoa ao invés de ser inibida demais, extravasa ou demonstra excessivamente suas emoções.

Psicoterapia para o Esquema de Inibição Emocional

Após a conceitualizaçao de caso, a psicoterapia para o Esquema de Inibição Emocional consiste em fazer reestruturação cognitiva, reparentalizaçao limitada, estratégias vivenciais para ressignificaçao emocional e que consiste em exercícios de imagem mental nas quais o paciente entrará em contato com suas próprias emoções e sentimentos.

Esta abordagem psicoterapêutica é profunda, visto que não trabalha somente o cognitivo, o racional, mas também o mundo emocional do paciente, pois muitas vezes o mesmo sabe exatamente o que sente, mas não entende porque o sente, ou seja, compreende perfeitamente a parte racional e cognitiva, inclusive não sendo de acordo com o próprio comportamento, mas ainda assim se sente aprisionado em suas emoções. Por conseqüência, não sabem lidar com seu mundo emocional e os comportamentos advindos de conteúdos ainda desconhecidos pela pessoa.

Isto acontece porque o centro das emoções são estruturas mais primitivas que o neocórtex ou cérebro racional. Nosso cérebro emocional consiste na conjunção do tronco encefálico e do sistema límbico. Por este motivo, alguns comportamentos são compreendidos a nível cognitivo, mas nem sempre a nível emocional, requerendo técnicas psicoterapêuticas para compreensão e ressignificação do que se sente e nao somente do que se pensa acerca do acontecido. Uma vez ativado e não tratado, o Esquema de Inibição Emocional acompanha a pessoa até a vida adulta.

Autora
Soraya Rodrigues de Aragão
Psicóloga, Psicotraumatologista, Expert em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde. Autora em 4 livros publicados. Escritora em vários portais, jornais e revistas no Brasil e exterior.

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