Quando nos reportamos a lutos e perdas, geralmente fazemos referência a situações externas, àquilo que a vida nos leva e que geralmente não temos o menor controle para modificar os fatos. Pode ser a morte de um ente querido, a perda de algo, uma traição, um divórcio, a perda de um emprego, o pesar de expectativas malogradas ou a desolação de algum sonho que feneceu. Queremos tantas vezes ter o controle daquela situação, mas o que se deteriora, fenece, morre ou vai embora em alguma perspectiva geralmente não pede a nossa permissão. Quem se autoriza viver, precisa estar disposto a não prevenções, a não imunizações. Tantas vezes, as coisas simplesmente acontecem e acontecimentos não voltam no tempo para podermos dinamizar os fatos, para nos protegermos ou nos prevenirmos. Tem perdas que podem não ser recuperadas, e nestas circunstancias a única escolha que nos resta é olhar para a frente, aprender com as experiencias, fortalecer nossa resiliência e perscrutar as possibilidades que ali se apresentam para continuarmos nossa caminhada, mesmo com o coração dilacerado e com as feridas emocionais abertas que ainda sangram.

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Então, diante do que “perdemos”, acionamos nossos mecanismos de defesa psíquicos; é algo normal e até esperado que seja assim. Fechamos os olhos e negamos que aquilo não poderia ter acontecido, que não pode ser verdade ou que a situação se ajustará com o tempo. Tentamos fugir da realidade, idealizarmos até mesmo fantasias para acalentarmos o coração, mesmo que seja através de enganos, de devaneios, do que poderia ter sido de acordo com as nossas perspectivas. Quando nossos esforços não levam a lugar algum e o que esperávamos não acontece, nos sentimos revoltados, injustiçados pela vida e incompreendidos pelas pessoas. Na compreensão desta dinâmica infrutífera da “vitimização”, tentamos negociações com as pessoas, com Deus, com a vida e mesmo conosco para depois “nos permitirmos” cair em nós até compreendermos que a finitude faz parte da existência e em meio a este estado de tristeza e “melancolia” podermos enfim aceitar as nossas mortes e perdas para a libertação das amarras do que partiu e para alcançar novos horizontes e iniciarmos novas jornadas. Neste momento de fechamento de ciclo, geralmente não aceitamos mais qualquer lugar que as pessoas nos colocam, não aceitamos tábuas de salvação e nem bengalas. Empoderamo-nos para renascermos para uma nova vida, mas caminhando com nossos próprios pés e criando asas para alçarmos novos vôos. É momento de cura interior que traz o amanhecer de uma nova vida.

Um processo de luto é algo doloroso, não existindo aquele menos sofrido ou melhor de ser elaborado, pois a dor é a de quem sente e sempre é legítima. Como falei anteriormente, quando falamos de perdas e processos de luto, sempre as percebemos como uma dinâmica alienada de nós. Queremos mobilizar fatos externos, mas não nos apoderamos daquilo que acontece dentro de nós, para nos autoconhecermos, para mergulharmos fundo no caldeirão das nossas emoções, dos nossos investimentos anímicos e dos seus porquês.

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Geralmente nos esquecemos que quando enterramos algo, seja no sentido simbólico ou real, um pedacinho de nós morre junto. Na dinâmica do luto, a dor mais profunda a ser elaborada não é exatamente aquela que perdemos lá fora, no sentido real, mas o que perdemos dentro de nós no sentido simbólico como investimento objetal que foi sacrificado e que nos foi tirado “sem a nossa permissão” e talvez antes do tempo do que nos seria permitido viver, segundo a nossa percepção. Contraditoriamente, se uma parte de nós morre com o que se foi, dentro de nós continuam ardentes o pulsar de emoções tantas vezes contraditórias pelo mesmo objeto investido, onde ainda coabitam ali as experiencias vividas transbordando de sentido e significado que precisam ser sepultadas, mas antes sacrificadas, medida difícil de ser elaborada.

O problema reside no fato de que o sepultamento nunca acompanha o passo do que insiste em viver no lugar mais seguro que existe: dentro de nós e que precisa ser desabitado para que em meio aos destroços, sobrevivamos de maneira mais salutar mesmo submersos no lodaçal do pantano dos sentimentos mais embotados. Por que o pior luto a ser elaborado não é quando perdemos algo ou alguém, mas o que precisamos abrir mão daquilo que era caro enquanto sentido e que precisa ser ressignificado, elaborado, compreendido, enterrado e curado. Por outras palavras, o pior luto a ser elaborado não é quando perdemos algo ou alguém, é quando nos perdemos, quando não sabemos o que fazer do que ficou e que insiste em permanecer ali eternizado em um lugar desabitado e que nos vai retirando as oportunidades de caminharmos passo adiante.

Soraya Aragão

Soraya Aragão

Psicóloga, Psicotraumatologista, Expert em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde.

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