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A nossa sociedade está pouco preparada para lidar com a depressão, embora a mesma seja a doença que acomete 300 milhões de pessoas no mundo. Embora tenham sido desenvolvidas medicações e terapêuticas psicológicas eficazes, no que tange à rede de apoio social ainda precisamos avançar muito. Falo isto porque mesmo com medicação e psicoterapia, se a rede de apoio não funcionar, invalidar ou descreditar o sofrimento daquela pessoa, esta estará constantemente em contato com um ambiente hostil, que não a compreende, não a valida e neste caso, o processo de cura pode ser dificultado, pois vinculações seguras com pessoas significativas e que oferecem apoio devem fazer parte do tratamento. No entanto, a realidade é outra, na maioria das vezes a pessoa é incompreendida e julgada. Infelizmente, percebo uma verdadeira alienação dos estados de sofrimento psíquico. Há muito sofrimento e pouco entendimento.

Nunca é demais lembrar que uma dor emocional pode ser tão dilacerante quanto uma dor física e que a letargia está muito longe de ser sinônimo de zona de conforto; que sentir desesperança e vivenciar o “nada” não é uma escolha, que não ver sentido na vida não é falta de força de vontade. Muito fácil dizer quando não se sente. Será mesmo que uma pessoa depressiva se “adapta” ou mesmo aprecia toda a gama de sentimentos e sintomas que a acompanham pelo simples prazer de não querer fazer nada?

Foto de Liza Summer no Pexels

Geralmente, as pessoas se empatizam com dores em que a fratura é exposta, em que o sangramento ocorre, no que de fato se vê e se constata como ferimento, fratura, sangramento. Por que há tanta dificuldade em se empatizar com a depressão? O fato é que se trata de uma dor invisível, um sangramento solitário da alma, uma dor que somente o depressivo sente, onde há descrença num mundo em que precisamos ser constantemente produtivos. O mundo em sua competitividade, falta de recursos, violência e desigualdade é o terreno fértil para o desenvolvimento de psicopatologias, as quais depois de “produzidas” nao sao aceitas, muito menos compreendidas.

Escuto nos atendimentos clínicos relatos muito parecidos, tais como: “Você não quer se curar, já se acostumou a viver nessa vida, não se esforça” ou ” Você gosta da sua zona de conforto; estar depressivo lhe proporciona uma vidinha medíocre mas tranqüila”, “Você precisa deixar de ser fraco, está se tornando um inútil”. Esses relatos são muito mais comuns do que se imagina e não ajudam em absolutamente nada, fazendo com que a pessoa se sinta ainda mais culpada e de fato inútil. Por esse motivo, a importância em psicoeducar o paciente, mas sobretudo a família, aquela que deveria ser um suporte saudável nesse momento tão delicado. O julgamento e a comparação por serem cruéis, obviamente não são metodologias eficazes.

Como disse Mário Quintana: “…só o sofrimento humaniza as pessoas.” Poderíamos acrescentar que somente sabe o que de fato significa depressão foi quem passou por uma, pois não há palavras para se descrever o esvaziamento existencial e a dor não socializada, incompreendida e solitária do “estar depressivo” que não é uma simples tristeza ou mal estar passageiro. E lembremos: rede de apoio familiar e social também é um tipo de “medicação”. Um olhar de carinho, um abraço sincero, palavras acolhedoras curam muito mais que acusações. É preciso esperar o tempo do outro, a sua dor, se sensibilizar, se empatizar. Esse é o caminho mais eficaz para um processo de cura.

Autora
Soraya Rodrigues de Aragão
Psicóloga, Psicotraumatologista, Expert em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde. Autora em 4 livros publicados. Escritora em vários portais, jornais e revistas no Brasil e exterior.

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