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A conjugalidade é uma área muito importante da vida para a grande maioria das pessoas. Contudo, relacionar-se não é tão simples. Manter alinhadas expectativas reciprocas por um longo período de tempo visto que as pessoas envolvidas estão em constante contato com fatores externos, incluindo pessoas, nao é por nada simples. Quando ocorre uma traição conjugal, entram nesse contexto a falta de congruência de valores e expectativas desta relação que está em constante dinamismo.

Responsabilidades surgem e se agregam, como o nascimento dos filhos, a sobrecarga emocional e lavorativa, também podendo ser incluídas neste contexto gerando uma rotina, requerendo novas adaptações e gerenciamento de um tempo que agora se torna cada vez mais escasso, o que gera um certo distanciamento quase que automático permeado pela rotina do dia a dia.

Sendo assim, ao longo da relação, é normal que surjam conflitos oriundos do olhar perceptivo de cada cônjuge diante dos desafios relacionais que se sedimentam ou de possíveis mudanças valorativas e seus reajustes que se amoldam à nova realidade do casal. No entanto, quando ocorre uma dissonância das expectativas, dos valores e da falência na resolução de conflitos entre o casal,

O primeiro fator a ser prejudicado é a comunicação e o diálogo. E a partir deste ponto inicia-se o efeito dominó. Na ausência de diálogo, o casal se distancia, podendo gerar sentimentos de rejeição, traição e desconfiança, surgindo então comportamentos de controle e que afastam cada vez mais o outro e dando espaço a questões mal resolvidas entre o casal.

Estas pendências se transformam em uma verdadeira bola de neve que geram um ciclo vicioso: falta de diálogo -comportamento de controle- comportamento de esquiva (fuga da situação) – falta de diálogo. Na ausência de comunicação, o parceiro tenta adivinhar o que o outro pensa, o que o outro faz, o porque de estar distante, indiferente ou isolado, acarretando sentimento de desconfiança, o que causa ainda mais desgaste e distanciamento, sentimentos de culpa, raiva e tempo perdido.

Quando o desequilíbrio chega a este ponto, cada um tenta colocar a culpa no outro, se queixando que o cônjuge mudou de comportamento e cobrando dele(a) posturas que não foram alimentadas no decorrer do tempo, esquecendo que a responsabilidade por um relacionamento saudável é de ambos.

A rotina mal administrada e os comportamentos disfuncionais como a falta de diálogo, a cobrança de determinadas condutas de maneira não assertiva, o ciúme exacerbado, o desrespeito, a agressividade verbal e não-verbal, a culpabilização e o controle geram distanciamento podendo levar à infidelidade. E geralmente isto acontece.

Quando a situação chega neste ponto, como lidar e superar esta questão que mexe tanto com a nossa autoestima, nos debilitando emocionalmente? Sugiro que antes de investir em uma reativação matrimonial, é necessário identificar os gatilhos e trabalhar os fatores destrutivos que em algum nível ocasionaram a ruptura do relacionamento, de modo a solucioná-los. Através da psicoterapia, serão identificados e trabalhados de maneira consciente, responsável e proativa as deficiências e carências que contribuíram para a ruptura do casal de modo a supri-las, se este ainda for o desejo de ambos os parceiros.

Foto de Karolina Grabowska no Pexels

Elaborei 3 passos principais para ajudar na superação de uma traição conjugal da melhor maneira possível:

1- Quando um relacionamento se desgasta, o desejo se apaga, levando à infielidade conjugal, nao hà culpados e sim responsàveis:

Ambos são responsáveis pela manutenção de um relacionamento saudável. Um vínculo amoroso é uma dinâmica entre duas pessoas que são partes ativas no processo, mesmo que uma das partes seja mais passiva ou não tenha voz ativa, sempre há um posicionamento, um repertório de comportamentos que afetam todo o sistema. É como se fosse uma teia de aranha, quando se toca um fio, todo o sistema se estremece.

Quando o relacionamento não vai bem e precisamos compreender porque não deu certo, em que ponto ocorreu o erro, a falha ou a insuficiência, somos compelidos a apontar o dedo em riste, culpabilizando o outro pelas falhas que fizeram desmoronar o relacionamento. Ou então nos culpamos. Onde fica a responsabilidade em tudo isto? Reitero que muitas vezes nos esquecemos que para a subsistência de um relacionamento saudável, a responsabilidade deve ser de ambos e se houve alguma falha ou erro do parceiro, posicionar-se de maneira assertiva no momento oportuno seria a melhor medida preventiva para a extinção daquele comportamento indesejado que foi enraizado como um espinho na relação. Neste contexto, estabelecer culpados não leva a lugar algum.

2- Inicie o trabalho do luto:

O trabalho do luto é importantíssimo para nossa reorganização psíquica. Seja porque você desistiu do relacionamento ou deseja reconstrui-lo em novas roupagens, o trabalho do luto é necessário, pois quando existe traição, feridas emocionais dolorosas se abrem. Uma traição machuca muito e o processo de luto é doloroso e dependendo da pessoa, do tempo investido e da importância daquela relação, podem sim deixar cicatrizes que vez ou outra nos revisitam inoportunamente causando angústia, dor e pesar. Contudo, como para cada veneno existe um antidoto, para cada dor existe um remédio. Uma traição mal elaborada é geradora de traumas e conflitos internos, além da possibilidade do desenvolvimento de transtornos depressivos e ansiosos.

O mais importante é que você não se esquive ou evite enfrentar as fases do luto, pois é imprescindível vivenciá-las com profundidade cada uma delas. Lembre-se que tudo que não é enfrentado, não é combatido, tampouco trabalhado; pior que isso, ganha força na sua vida. Tenha a coragem de olhar seus medos de frente, encare-os, busque respostas e soluções. Muitas pessoas dirão para que você enxugue suas lágrimas quando sentir vontade de chorar, outras podem dizer que é bobagem e que você deve partir imediatamente para outro relacionamento, sem perder tempo, sem elaborar a ruptura do vinculo anterior. Esta é uma medida perigosa e o ponto seguinte a ser abordado.

Foto de Karolina Grabowska no Pexels

3- Não invista em outro relacionamento sem que esteja curado do anterior:

Quando somos traídos, geralmente somos impulsionados a querer dar a volta por cima, a mostrar para o outro que estamos seguindo nossa vida muito melhor sem ele(a). Estamos dispostos até mesmo a recomeçar uma nova história muitas vezes com o coração ainda bem machucado, com a alma dilacerada. Discordo totalmente do ditado popular que diz que um amor só se cura com um outro amor. Não é bem assim. Primeiro, porque pessoas não devem ser usadas a nosso bel prazer como remédio para a cura de nossas dores emocionais e segundo porque precisamos antes estar bem conosco para que possamos estar bem com qualquer outra pessoa e em uma outra relação.

O processo de cura é um trabalho essencial para que não projetemos para o relacionamento atual situações mal resolvidas daquele relacionamento do passado. E se não as ressignificarmos, geralmente levaremos estas questões rescindindo nos mesmos pontos, nos mesmos erros, nas mesmas falhas e questões. E toda a história mais ou menos parecida se repete. Vez ou outra escuto alguém dizer que o atual parceiro(a) apresenta muitas características, posturas e comportamentos semelhantes ao do parceiro anterior, inclusive tecendo os mesmos problemas. Acredite: você não é um azarado, não tem “dedo podre”, nem jogaram feitiço para você não dar certo com ninguém.

O que acontece, é que você precisa resolver situações que ainda estão pendentes nas relações anteriores e sobretudo consigo mesmo(a). Outra questão importante, é que sugiro, caso a tristeza profunda invada o seu coração, que chore tudo o que tiver que chorar, não permitindo que absolutamente nada ou ninguém compare ou julgue a sua dor. Cada pessoa é única, cada história de vida é única e o seu limiar de dor também é único. Cada um sabe onde o sapato aperta. Por outras palavras, somente você sabe o que viveu e como viveu e o que deixou de viver neste relacionamento. Não aceite que ninguém compare ou subestime sua dor, dizendo que é algo de pouca monta ou bobagem.

Conclusão:

Como relatei em um outro artigo meu, não existe relacionamento perfeito e sim relacionamento saudável. Contudo, a traição conjugal vai muito além de uma imperfeição entre parceiros que pode ser contornada. A infidelidade conjugal é uma ruptura de um acordo entre o casal, sendo matriz geradora de muito sofrimento psíquico, afetivo e emocional, balançando a resiliência e autoestima do parceiro.

A traição conjugal pode ser o um reinício para a relação, com mais maturidade e solidez. Mas para outros parceiros pode significar o fim quando a partir disto o outro decidiu tomar um novo rumo em sua vida, ir embora, refazer a própria vida. Nestas condições, o melhor a fazer é deixà-lo(a) ir e agradecer por este fato. No início, evidentemente você sofrerá, mas indubitavelmente não se condenará a estar ao lado de uma pessoa que não te respeita, tampouco te merece.

A partir deste ponto, você poderá iniciar uma nova jornada na sua vida, conhecer novas pessoas, realizar novos projetos, vislumbrar um mundo infinito de possibilidades à sua frente. E o mais importante de tudo: investir em você mesmo(a), em seu autoconhecimento e autodesenvolvimento. Se uma reconstrução relacional for possível, esta será fortificada; se a ruptura for completa, inicie uma nova jornada na sua vida. O importante é não se permitir estacionar no limbo enquanto a vida passa.

Autora
Soraya Rodrigues de Aragão
Psicóloga, Psicotraumatologista, Expert em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde. Autora em 4 livros publicados. Escritora em vários portais, jornais e revistas no Brasil e exterior.

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