Pare por um instante. Repare no ritmo da sua respiração agora e nessa calma fingida que a sua pele tenta sustentar. O que você sente na superfície é apenas uma trégua armada. A gente acorda, passa o café, organiza a agenda e sai de casa achando que manda em alguma coisa, mas é aqui que mora a ilusão. E por esse motivo, esse é um convite que te faço: desce comigo até o porão escuro da sua mente. Deixa lá fora todas as suas defesas intelectuais que você usa contra o desamparo, feridas emocionais ou partes exiladas do seu eu. Se tiver coragem de continuar lendo, vamos encarar o pior dos perigos: essa nossa capacidade assustadora de inventar mentiras para anestesiar a dor, até que o fantasma que nós mesmos criamos vire a nossa única realidade.

Vamos ter uma conversa olho no olho, porque preciso falar direto com a sua dor de estimação. Aquela, exatamente aquela dor que pesa no estômago quando a noite cai e o silêncio da casa começa a sufocar. Você sabe exatamente do que eu estou falando, pois se trata daquela certeza cega de que nada dá certo, de que todo mundo vai embora e de que o mundo é um lugar hostil. Você chora por isso, sabota seus relacionamentos, joga carreiras no lixo e se tranca no seu quarto jurando que está apenas encarando a realidade. Mas, e se eu te mostrar que esses seus fatos são uma farsa? E se eu te provar que a sua mente está mentindo desesperadamente para te proteger através de mecanismos de defesa, enquanto o seu corpo paga a conta em angústia, insônia e adoecimento?

Para entender o tamanho dessa armadilha, a gente precisa voltar no tempo. Esquece por um instante o barulho do século XXI, por um minuto apenas e tenta escutar o silêncio daquela caverna ancestral de onde a gente veio.

Pensa nos nossos ancestrais lá atrás, no paleolítico, trancados no escuro de uma caverna. Do lado de fora, a savana não perdoava o otimismo, porque se um arbusto balançasse no meio da noite, a pessoa que achasse que era só o vento e continuasse dormindo virava janta de predador, de preferencia do tigre dente de sabre. Mas aquele que imaginava o pior cenário possível, que entrava em pânico, sentia o coração disparar e saía correndo, mesmo que fosse só uma brisa leve, esse sim, sobrevivia. E sabe o que isso significa? Que nós somos os filhos dos ansiosos e descendentes diretos de quem (sobre)viveu com medo e na vulnerabilidade, nòs herdamos a sua genética e a trouxemos até aqui, onde nao existem mais predadores, mas as ameaças continuam vivas de forma abstrata.

A evolução programou o nosso sistema nervoso desse jeito, na base do trauma e da sobrevivência. Filogeneticamente, o cérebro humano não foi feito para buscar a verdade, a paz de espírito ou a iluminação. A função dele é puramente biológica, ou seja, te manter vivo para você passar os seus genes para a frente. Para o seu cérebro, é muito melhor errar pelo excesso de medo do que perder a vida.Ele prefere que você enxergue um monstro em cada sombra do que um amigo em cada desconhecido.

Para suportar o caos e o terror de um mundo que não entendiam, os nossos antepassados inventaram os mitos. Os deuses do trovão, os sacrifícios e as lendas eram tentativas desesperadas de dar algum sentido à escassez, à dor e à morte. O mito não era uma mentira proposital, mas a única tradução possível para o sentimento de desamparo. O grande problema é que essa mesmíssima engrenagem arcaica, esse código moldado pelo terror do homem das cavernas, continua rodando perfeitamente dentro da sua cabeça hoje. O eco daquela gruta escura ainda corre no seu sangue.

Quando você esbarra no vazio de um divórcio, no fim repentino de uma história ou no silêncio de um fora, o seu cérebro de homem das cavernas entra em pânico. Ele odeia a falta de respostas e não aguenta o vazio. E quando não há uma explicação óbvia para a dor, ele faz o que sabe fazer de melhor há milênios, que é inventar uma história para nao entrar em dissonancia cognitiva. Você cria o mito de que o problema é você, desenha uma tragédia pessoal na cabeça e passa a ter medo dos fantasmas que você mesmo projetou na parede. O homem da caverna morria de medo do trovão que ele mesmo transformava em deus, assim como você morre de medo do amanhã que a sua mente transformou em carrasco.

Imagem de Keenan Constance no Pexels

A anatomia da ilusão: onde a fantasia e a realidade compartilham as mesmas sinapses

Você pode me perguntar, com o nó na garganta e a voz trêmula: Mas se é só uma história da minha cabeça, por que dói tanto? Por que o meu corpo implode desse jeito se nada disso é real? A neurociência tem uma resposta assustadora: para o seu cérebro, a linha que separa o que você vê do que você imagina é invisível porque a engrenagem cerebral para ver e para fantasiar é praticamente a mesma. Quando você abre os olhos e olha para o mundo, ativa o seu córtex visual, mas os exames de imagem provam que, se você fechar os olhos e apenas imaginar a cena com detalhes, as mesmíssimas áreas da sua cabeça acendem. No nível dos neurônios, projetar uma catástrofe futura gasta exatamente a mesma fiação de estar vivendo o perigo agora.

O grande maestro dessa mentira é um circuito chamado Rede de Modo Padrão, a DMN. Ela é a contadora de histórias oficial da sua cabeça e é exatamente ela que entra em ação quando você começa a divagar, a remoer o passado, a sofrer pelo futuro ou a tentar entender quem você é e/ou porque se comporta como se comporta. Se essa rede fica hiperativa, ela vira uma fábrica de paranoia, pois a verdade é que o seu cérebro funciona na base da previsão, sendo que você não é um espectador passivo do mundo, mas um adivinho ativo. O seu cérebro vive trancado no escuro de uma caixa de osso, o crânio, recebendo apenas choques elétricos codificados que vêm dos olhos, dos ouvidos e da pele e para dar sentido a esses impulsos, ele usa o que já tem guardado, ou seja, as suas memórias, as suas crenças e os seus traumas antigos. Ele projeta uma expectativa no mundo e tenta espremer os fatos para caberem nessa moldura, ou seja, o cérebro gera o que a neurociência chama de alucinação controlada. O problema é que a gente escolhe chamar isso de realidade, compreende?

Se as suas crenças mais profundas forem distorcidas pelo medo, a previsão que o seu cérebro faz do mundo vai nascer deformada. Se você repete para si mesmo que todo mundo vai embora, a sua memória vai buscar lá atrás os seus piores traumas para validar essa tese (lembra da dissonancia cognitiva?). A sua cabeça vai organizar os argumentos para que a mentira faça sentido, enquanto o seu corpo é inundado por descargas massivas de cortisol e adrenalina, pois o seu organismo não sabe a diferença entre um lobo real correndo atrás de você na floresta e a história de terror que você se conta antes de dormir sobre como vai terminar sozinho ou como algo vai sair errado como sempre. O que quero dizer é que para a sua biologia, o fantasma dói tanto quanto o metal que corta a carne, nao existe separatividade aqui.

Imagem Nadeem Abdullah no Pixabay

O sequestro amigdalar e a cicatriz do trauma

Se a neurociência mostra os trilhos por onde a ilusão caminha, o trauma pode ser o combustível que acelera o trem rumo ao abismo. O trauma psicológico, seja um grande soco da vida ou aquele trauma por omissao silencioso da negligência na infância, não fica para trás no calendário, no tempo. Lembrando que o trauma é a mudança física que aquele estrago causou no seu sistema nervoso e é uma cicatriz invisível que vive no presente e o (de)forma. Quando a dor é grande demais para ser digerida, a sua amígdala, que é o alarme de incêndio do seu cérebro, entra em pane e fica ligada para apagar o fogo da ameaça. Sob o efeito desse sequestro, a sua capacidade de raciocinar com clareza simplesmente desliga pois o instinto de animal acuado assume o controle de suas açoes. Para evitar que o passado se repita, a sua mente cria regras rígidas e com essa lente distorcida nos olhos, você passa a escanear o ambiente, os olhares e as entrelinhas das conversas, procurando qualquer sinal minúsculo que comprove a sua história trágica para trazer um sentido bem delineado ao que voce vivencia agora.

Por exemplo, se um amigo demora algumas horas para responder uma mensagem, uma mente calma pensaria: Ele(a) deve estar ocupado(a) ou sem bateria, ou quem sabe està tomando banho, qualquer coisa desse tipo. Mas o seu cérebro traumatizado odeia a neutralidade do fato. É nesse instante que o tribunal do seu medo imediatamente decreta o veredito: Viu? Confirmou o que no fundo eu previa e jà sabia! Ninguém se importa comigo! E é aqui que você espreme a realidade para que ela caiba direitinho na fôrma da sua dor antiga e tao bem conhecida. Contar essas histórias e acreditar nelas é uma tentativa desesperada de controlar o caos. Para uma mente assustada, é menos doloroso acreditar na mentira de que a culpa é sua por tudo dar errado, o que mantém a ilusão de que, se você for perfeito, controlará o amor do outro, do que aceitar a realidade tal como é: a vida é imprevisível, as pessoas são limitadas e nós não temos controle de nada, ponto. A história distorcida vira uma gaiola conhecida que dilacera a sua alma, mas que ao mesmo tempo te poupa do terror de olhar para suas feridas emocionais ou para o vazio que elas provocam.

Para que a cientificidade deste fato ganhe corpo e imagem na sua sensibilidade, evoco aqui uma alegoria antiga, guardada na sabedoria atemporal da mitologia grega: o encontro trágico entre Narciso e a ninfa Eco. Costumamos reduzir o mito de Narciso à vaidade estética, mas a sua essência nos fala sobre a profundidade assustadora do autoengano. Narciso não se apaixonou por si mesmo, ele se apaixonou por uma projeção, por uma imagem flutuante e distorcida na superfície de um lago que ele jurava ser um outro ser. E foi assim que ele morreu de fome e sede porque não conseguia se afastar da história visual que seus próprios olhos projetavam na água.

Trazendo este mito para a sua historia de vida, quantas vezes você tem sido como Narciso, debruçado sobre as águas turvas das suas próprias emoções, aterrorizado ou fascinado por projeções que você mesmo engendrou? Você olha para o seu parceiro, para o seu trabalho ou para o seu espelho e não enxerga a realidade factual, mas enxerga apenas os reflexos dos seus medos, das suas carências e dos seus traumas. E ao lado de Narciso habitava Eco, a ninfa condenada a nunca ter voz própria, restando-lhe apenas repetir as últimas palavras de quem falava com ela. A sua mente funciona frequentemente como Eco: ela repete exaustivamente os vereditos cruéis que o seu trauma decretou no passado, reverberando nos seus ouvidos as mesmas mentiras arcaicas até que elas se tornem a sua única verdade audível e acreditavel.

O perigo absoluto de habitar esse labirinto de espelhos e ecos é a perda progressiva da sua identidade e a desconexão com o fluxo real da vida, pois ao acreditar nas histórias distorcidas que o eco das cavernas dita no seu sangue, você sabota relações saudáveis antes mesmo que elas deem frutos,você abandona projetos por medo do fracasso antecipado e afasta aqueles que nutrem um sentimento genuino porque a sua narrativa interna insiste em dizer que todo afeto é uma emboscada, como sempre foi. E assim, você se transforma no arquiteto meticuloso da sua própria ruína, cavando o abismo onde depois irá chorar, esquecendo-se de que foi a sua própria mão neurobiológica que cavou e empunhou a pá.

Se o seu estômago contraiu e o peito apertou ao ler tudo isso, não encare este texto como uma condenação, mas como o primeiro sinal da sua libertação. Entenda que a nossa tendência de focar sempre no pior não é maldade ou defeito seu, pois o negativismo é um mecanismo de enfrentamento filogenético, é a biologia da nossa espécie nos forçando a usar o negativismo para sobreviver. Perceber que a gente inventa as nossas próprias mentiras e que fomos sequestrados pelo medo dos nossos antepassados não é sinal de fracasso, mas o começo da cura. Essa dor de enxergar as próprias paranoias é o que a psicologia e os místicos chamam de a noite escura da alma. É aquele momento sagrado e terrível em que as velhas desculpas desabam, o chão falso some sob os pés e você sobra sozinho com a sua vulnerabilidade. O fim de um ciclo de mentiras é sempre a chance de um renascimento, visto que sabemos que para que o sol nasça de verdade na sua vida, você precisa primeiro ter a coragem de enterrar o cadáver das histórias que já morreram.

Desconstruir o eco das cavernas no seu sangue exige um esforço consciente de neuroplasticidade autogerada e de reeducação emocional. Significa assumir a autorresponsabilidade cirúrgica pela sua própria existência e calar a voz repetitiva de Eco, afastar-se da beira do lago de Narciso e olhar para a realidade com os olhos limpos do momento presente. Você não pode mudar a história filogenética que moldou o seu cérebro para o medo, e tampouco pode apagar as marcas do trauma que o passado lhe impôs, mas você pode, a partir de agora, escolher não ser mais o espectador passivo do que voce criou na mente e que a sua química cerebral insiste em encenar.

Abrace a sua travessia e deixe que o incêndio dessas verdades queime as ilusões que viraram prisões. Quando você decide olhar para a sua história sem filtros e sem mentiras confortáveis, o medo perde a força e um novo caminho se abre na sua cabeça, pois essa capacidade de se enxergar de fora, chamado de auto-observação ou metapsicologia, é o que quebra o feitiço. É aí, no silêncio do seu renascimento, que você caminha pelo mundo sem o peso dos fantasmas que você mesmo criou. Honre o sangue que corre nas suas veias, mas escolha escrever o seu roteiro com as tintas da consciência e da sua própria liberdade com os pés no chao, sem o negativismo excesso carimbado pelo tempo para nossa sobrevivencia, nem tampouco a positividade tòxica que também conta uma historia espetacular mas que te faz cair no mesmo abismo dos meandros da sua mente e suas historias enviesadas.

Autora
Soraya Rodrigues de Aragão
Psicóloga, Psicotraumatologista, Expert em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde. Autora em 4 livros publicados. Escritora em vários portais, jornais e revistas no Brasil e exterior.

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