Não alimentar sentimentos de vingança não se trata apenas de um problema  ético, moral ou religioso, visto que este sentimento repercute diretamente no campo emocional e mental da pessoa, podendo inclusive progredir em distúrbios ansiosos e depressivos. Quando somos traídos ou injustiçados sofremos uma dor emocional equivalente a uma apunhalada nas costas e esta dor torna-se mais contundente quando a ação perpetrada advém de quem confiávamos ou menos esperávamos, de quem estava ali ao nosso lado, como um amigo querido ou um familiar. Por uma questão de autodefesa, geralmente surge um sentimento de reatividade e retaliação. Temos uma sensação de perplexidade, impotência, ressentimento e incredulidade. E não se trata somente de um simples ego ferido, indo muito mais além. Por uma questão de reorganização psíquica e ressignificaçao, precisamos ao menos compreender o porquê daquele comportamento hostil e da falta de consideração; em suma, das motivações que impulsionaram aquela forma egoísta e cruel de proceder. Como disse, num primeiro momento, como reação instintiva pode vir o desejo de dar o troco, aquele belo xeque-mate, de dar a última palavra, de fazer com que o outro sinta na pele toda a dor que nos foi praticada injustamente. Contudo, precisamos refletir se a vingança realmente vale a pena. Aquilo que pensamos que possa nos “lavar a alma”, na realidade é a autocondenação que no mínimo roubará a nossa própria paz de espírito, saúde, tranqüilidade e serenidade. Após um primeiro impacto, pensando racionalmente e não agindo apenas instintivamente, a nossa serenidade valeria assim tão pouco? Parece difícil, mas o caminho mais inteligente e autoprotetivo não seria trabalhar o perdão, processo este algumas vezes muito difícil mas valioso? Obviamente precisamos perdoar, não por estar de acordo com o que nos foi feito, mas sobretudo para nos resguardarmos e nos libertarmos de um pesar ao qual muitas vezes não somos responsáveis.
Diante de tudo que foi questionado, refletido e contextualizado, até que ponto o sentimento de vingança seria producente? Mais que isto, até que ponto poderia repercutir negativamente em nossa saúde mental? Vamos avaliar cuidadosamente a questão.

Sentimento de vingança e sua ação no psicossoma:

O sentimento de vingança baixa o sistema imunológico, deixando o organismo suscetível a doenças, bem como ocasiona dores musculares devido ao aumento do cortisol, o hormônio do estresse. Além destes elementos que por si são deflagradores de doenças físicas, ainda há a probabilidade do desenvolvimento de transtornos de ansiedade como o TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) e da Depressão. Dependendo da gravidade do que foi feito, do tipo de personalidade e da genética da pessoa injustiçada, esta pessoa pode se tornar tão obcecada pela vingança e compulsiva nas tentativas de retaliação, que poderá vir a desenvolver o TOC, como foi dito anteriormente. Um agravante a mais é que a pessoa também perde o foco na sua vida e passa a focar na vida do outro, encontrando uma maneira de identificar as vulnerabilidades e fragilidades do outro, envolvendo-se nas sombras umbralinas da negatividade que impede a prosperidade em sua vida. Por conseqüência, sua vida relacional, conjugal ou profissional tende a ser deixada de lado, pois o tempo que poderia ser investido nas principais áreas da vida é direcionado para a elaboração da vingança. Há casos tão graves em que a pessoa está tão envolvida por este desejo, que o sono também pode ficar prejudicado, pois quem nutre sentimentos de vingança geralmente não tem paz nem de dia, nem de noite. Sabemos que noites em claro ou um sono não reparador geram estresse, ansiedade, gastrite nervosa, aumentam a pressão arterial, além de problemas cognitivos como falta de memória e concentração nas atividades diárias. Por conta da privação de sono e outras questões já elencadas, iniciam-se os processos inflamatórios.

Diante deste contexto, os chamados “órgãos de choque” começam a alarmar, pois quando o organismo se debilita física e psiquicamente, são exatamente aqueles órgãos mais sensíveis os primeiros a sofrer o impacto do veneno que é chamado vingança. Todos sabemos em maior ou menor grau que sentimentos como ódio e vingança não são compatíveis com a paz de espírito, visto que a serenidade não pode ter morada em um coração atribulado, sombrio e angustiado. O sentimento de vingança nos alimenta de pratos frios, destemperados e indigestos que nunca satisfazem, geralmente nos deixando num estado de alerta por uma oportunidade de retaliação pelo que corrompeu o nosso equilíbrio e homeostase psíquica. No entanto, muitas vezes esquecemos de nos questionar e para esta reflexão utilizo uma frase de Freud: “Qual a sua responsabilidade em toda esta bagunça”? Imprudência, confiança demais ou falta de autocuidado? O que poderíamos ter feito para ter evitado a situação, caso fosse possível, mas não foi tomada a devida providência? Como poderíamos ressignificar, dar um novo lugar a tudo isso?

Outro ponto importante a ser considerado é que o sentimento de vingança traz consigo uma energia potencial que certamente utilizaríamos para transformações positivas em nossas vidas, como nosso aprimoramento, autodesenvolvimento e progresso pessoal. A energia da vingança deve ser transmutada em aprendizado de vida e utilizada para dar a volta por cima a nosso favor. A dor de uma traição ou de uma rejeição é sempre um chamado para iniciarmos um processo de autoconhecimento, para visitarmos o cerne de nossas feridas emocionais, daquilo que nos toca profundo, devendo sempre ser utilizada para a construção de uma vida mais aprimorada e não para destruir a vida de ninguém, embora tenham tentado destruir a nossa. Não utilize dos mesmos recursos mesquinhos, pois aquela pessoa que age de maneira vil, num sentido mais profundo já está se punindo, visto que ninguém escapa das leis da vida.

Por tudo que foi elucidado e refletido, nutrir sentimento de vingança realmente vale a pena?

Será que o ato de perdoar quem nos feriu não seria, de fato, um ato de libertação?

Não se permita entrar no furacão da desordem moral e emocional do outro. Lembre-se que quando você perdoa, o maior beneficiado por esta decisão será você mesmo. No início será difícil e deve partir de uma decisão para depois ser internalizada e aceita de fato. E caso não consiga por si mesmo, peça ajuda. Pedir auxilio externo não é sinal de fraqueza e sim de coragem em construir bases saudáveis para a própria vida mesmo em meio ao caos. Dissipe as sombras com sua luz interior.

Portanto, perdoe, liberte-se! Sua saúde física, mental, emocional e espiritual agradecem.

Crédito das imagens: Pixabay

Autora
Soraya Rodrigues de Aragão
Psicóloga, Psicotraumatologista, Expert em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde. Autora em 4 livros publicados. Escritora em vários portais, jornais e revistas no Brasil e exterior.

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