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Hoje em dia o termo Depressão se banalizou e está associado no senso comum a desafios inerentes ao cotidiano de qualquer pessoa e que são naturais, a estados de humores passageiros. Em conseqüência de uma tristeza normal resultante de um dia difícil, as pessoas se dizem “deprimidas” sem compreenderem que de fato a depressão é uma doença incapacitante que leva uma pessoa para o fundo do poço, um abismo, um hiato entre possibilidades reais e a desesperança. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais a depressão esteja associada a falta do que fazer, falta de coragem ou de força de vontade, que se a pessoa decidir ela consegue sair “facilmente” de uma depressão. Vamos saber se de fato é assim.

Foto de NEOSiAM 2021 no Pexels

Quem consegue sair de um abismo facilmente por uma decisão? Será que de fato uma pessoa deprimida consegue decidir tão facilmente se a cognição está comprometida? Isso poderia ser possível nos primeiros sinais da Depressão, mas infelizmente não temos uma cultura preventiva e a maioria das pessoas procuram solução para seus problemas (quando procuram) somente quando estes estão deflagrados ou cronificados.

Em vista de tudo que foi dito, resolvi escrever esse texto trazendo os pensamentos, sentimentos, comportamentos e cognições de uma pessoa com Depressão. Este é resultante de uma série de perguntas e questionamentos durante sessões de atendimento, em uma linguagem acessível de como uma pessoa deprimida se organiza no seu dia a dia. Já antecipo que a vida de uma pessoa com Depressão não é nada fácil, tamanho sofrimento, e portanto, nunca é bastante dizer que pessoas deprimidas precisam de muito apoio e compreensão de sua rede de apoio social e principalmente dos familiares mais próximos, ou seja, aqueles com quem esses pacientes convivem diretamente em casa.

Não gostaria somente de convencer através de argumentos plausíveis, mas também de sensibilizar, pois já são 300 milhões de pessoas que sofrem de Depressão no mundo. A partir do momento em que a sociedade se sensibiliza para a doença mais incapacitante do mundo, menos pessoas irão sofrer e outras irão se solidarizar e assim quem sabe possamos antever alguma mudança.

Elenquei abaixo os principais discursos gerais de pacientes em processo psicoterapêutico para Depressão. Os mesmos não têm suas identidades reveladas, podendo ter idade, gênero e situação socioeconômica diversificadas. De fato, a Depressão é uma doença muito democrática. Os relatos são o resultado da mescla do discurso dos 4 pacientes para impossibilitar a identificação dos mesmos.

Paciente A: “Sinto muita falta de vitalidade, sequer me sinto vivo. Não sei o que é alegria, meu cérebro adormeceu, meus sentimentos se embotaram. Faço minhas atividades com muito custo, até mesmo aquelas mais simples. No início, pensei que fosse anemia. Fiz todos os exames e estava tudo ok. O clinico me pediu então para procurar um profissional de saúde mental. Nunca pensei em minha vida de passar por uma escuridão tão profunda, por sentir simplesmente “o nada” e que esse inferno que estou vivendo se chamasse depressão. Sinto muito sono, mas preciso continuar vivendo, não posso ficar deitado, tenho responsabilidades, me sinto muito culpado caso não dê conta dos compromissos que assumi. Mas meus olhos insistem em fechar, minha cabeça quer desligar, me sinto lentificado, morto, pesado e se tento com muito custo fazer minhas atividades, sinto um gasto de energia muito grande. Por estar totalmente desgastado, me irrito com muita facilidade.”

No discurso acima, observamos queixas de culpa, hipersonia, humor deprimido, fadiga, irritabilidade e retardo psicomotor.

Paciente B: “Não consigo mais ter uma vida intelectual produtiva. Estou sempre desligada, esqueço das coisas, não sei onde as deixei. Tenho um pensamento, uma idéia, mas rapidamente “foge” de mim, não sei o que pensei e nem o que ia fazer. Perguntas simples para mim são complexas e respondo com muito esforço. Me sinto totalmente desnorteada com tudo isso. Antes, eu era uma pessoa proativa, resolutiva, empreendedora e agora não consigo sequer absorver o conteúdo de uma página de um livro. A princípio, pensei que estivesse com uma doença degenerativa ou qualquer coisa do tipo, mas os exames foram negativados. Sinto muita falta do que fui, espero poder me recuperar, me reencontrar, pois me sinto perdida, não sei mais quem sou.

Não tenho mais prazer nas coisas que fazia. As pessoas ao meu redor não entendem o que sinto e relatam que eu poderia me engajar melhor no que estou fazendo para obter os resultados que quero, mas qualquer esforço é em vão. Gostaria de cavar um buraco e me colocar dentro para não ver mais ninguém, para não ouvir críticas e mais criticas, que só me fazem sentir mais inútil e culpada.”

No discurso acima, observamos queixas de letargia, problemas cognitivos, anedonia, fadiga, problemas identitários, isolamento, simbologia de ideação suicida e falta não somente de compreensão, mas criticas das pessoas mais próximas, o que complica ainda mais a situação.

Foto de RODNAE Productions no Pexels

Paciente C: “Ultimamente tenho sentido muita dor de cabeça e dores no corpo. Além disso, sinto que a vida passou por mim e não eu pela vida, não aproveitei as “boas oportunidades”, sou uma inútil, me sinto um lixo, sinceramente não queria nem estar aqui porque não vejo “luz no fim do túmulo (a paciente fez um trocadilho com fim do túnel, que em seguida corrigiu) mas esse “erro” não poderia ser desconsiderado, principalmente porque ela não estava com humor para brincar. E se fosse o caso, também nas brincadeiras muitas verdades são ditas. Em seguida ela conclui que queria morrer, que não sabe qual o sentido da sua vida e nem o que veio fazer aqui e que todos a abandonaram no momento em que ela mais precisou de apoio.

No discurso acima, observamos queixas de dores no corpo acompanhada por enxaquecas, sentimento de inutilidade e desvalia, humor deprimido, anedonia, desesperança, pensamentos e ideação suicida e falta de rede de apoio social.

Paciente D: “Conquistei muitas coisas na vida, me graduei, montei uma empresa de médio porte, tenho muitos bens materiais. Afetivamente também fui bem, me casei com a mulher que amo mas ultimamente não tenho visto sentido em absolutamente nada. As coisas que valorizava perderam o sentido totalmente. Me sinto lentificado, não consigo tomar decisões no prazo e isso tem prejudicado muito minhas parcerias na empresa. Vejo com inércia que tudo que construi está se esfacelando diante de mim mas não tenho forças para lutar, para prosseguir. Não sinto fome e gostaria de ficar deitado na minha cama, ter paz. Perdi 15 kg em 1 mês. Amo muito minha esposa, mas minha libido está prejudicada e isso está afetando minha vida conjugal. Não sei o que fazer, nem por onde começar. Cheguei no fundo do poço.”

No discurso acima, observamos desesperança, anedonia, baixa da libido, letargia, humor deprimido e perda de peso.

Agora vamos fazer um pequeno exercício: associar os 4 pacientes e colocar todas as queixas (a maioria delas) em uma única pessoa. Digo isso porque para fechar um diagnóstico de Depressão, dois sintomas são obrigatórios: a anedonia e o humor deprimido. E ainda seguindo os critérios diagnósticos do DSM-V, ao menos cinco sintomas dos nove elencados a seguir precisam estar presentes: sentimento de culpa e desvalia, problemas cognitivos, insônia ou hipersonia, pensamentos e ideação suicida, ganho ou perda de peso, agitação ou retardo psicomotor, perda de energia e desesperança.

E então, será que de fato Depressão é frescura, falta do que fazer, fraqueza moral, falta de Deus, não saber lidar com as próprias questões? Depressão é uma doença incapacitante, que precisa ser levada à sério e que como em qualquer outra doença, prevenção é a palavra-chave. Não deixe sua saúde para depois, não procrastine uma visita ao médico. Caso tenha se identificado com os sintomas relatados, procure um clinico geral e faça exames de rotina para descartar possíveis doenças físicas. Diagnosticada a Depressão, inicie o quanto antes seu tratamento, que consiste fundamentalmente na psicoterapia e psicofarmacologia.

Importante: Este texto tem função psicoeducativa, ou seja, é apenas informativo e não substitui o diagnóstico de um médico ou psicólogo. Caso tenha se identificado com os sintomas, procure ajuda profissional.

 

Autora
Soraya Rodrigues de Aragão
Psicóloga, Psicotraumatologista, Expert em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde. Autora em 4 livros publicados. Escritora em vários portais, jornais e revistas no Brasil e exterior.

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