Tudo o que nos acontece apresenta várias facetas e percepções e com a pandemia do coronavírus não é diferente. Infelizmente, muitas pessoas estão doentes, outras morrendo, há muito sofrimento, perdas, lutos e desequilíbrios de todos os tipos. O desemprego e a fome se agravaram, as vulnerabilidades se acentuaram; parece que o mundo virou de ponta cabeça e que estamos sendo testados enquanto humanidade, acerca da nossa capacidade de sermos compassivos, benevolentes, empáticos, menos egoístas e individualistas. Não estou desconsiderando em nenhum momento os aspectos destrutivos da pandemia que precisam de reparação, mas existe um outro ponto a ser considerado e que acredito valha a pena uma reflexão.

Poderemos até não aceitar, mas o fato é que o coronavírus de uma certa forma está nos oportunizando um momento de reflexão e reforma íntima; um momento para nos conscientizarmos da organização vigente, seja esta econômica, politica e social, bem como acerca da forma como interagimos com os outros em um sentido mais genuíno. Partindo da perspectiva desta oportunidade de mudanças profundas enquanto seres humanos, sequer consideraria um castigo o confinamento que nos oportuniza refletir acerca da vida que estamos levando, do que estamos fazendo, de como estamos vivendo e nos comportando; do individualismo, da falta de comprometimento e empatia. Mais que isto, da falta de amor mesmo, e isto vale para todos nós, sem exceção. Estamos no mesmo barco, dividindo o mesmo palco, com os mesmos dramas, dificuldades e conseqüências, não sendo o momento propício para lições de moral ou atribuir culpados e sim para grandes aprendizados e o principal ainda não aprendemos verdadeiramente.

Já estamos tão vulneráveis e machucados com tantas perdas, que precisamos nos acolher, nos dar as mãos, nos curar e principalmente aprender a amar. Precisamos aprender a ter uma visão sistêmica dos fatos que nos acontecem enquanto humanidade pois numa teia de aranha quando se toca num fio, toda a teia estremece.

A pandemia nos confinou em nossas casas e tenho a impressão de que chegamos a tal ponto de falta de conscientização, que uma doença de proporções mundiais nos colocou numa espécie de “cadeirinha do pensamento” como crianças birrentas e recalcitrantes que teimam em reincindir nos mesmos erros, em não querer evoluir, passar para a etapa seguinte, sendo imprescindível uma pausa forçada para reflexão e sendo necessário um confinamento obrigatório para organizarmos a desordem que existe no mundo e que parte de dentro de cada um de nós. Acredito que tudo isto está acontecendo para aprendermos a valorizar a vida, a reconhecermos nossa finitude neste plano, da importância de olharmos para dentro, para ouvirmos nossa voz interior, para nos conscientizarmos da importância dos verdadeiros laços, para valorizarmos as reais interações sociais que acontecem olho no olho, no abraço e no encontro genuíno com o outro. Sim, era necessário nos distanciarmos compulsoriamente por pelo menos 1 metro daqueles que estavam ao nosso lado para reconhecermos a sua importância, o seu valor, do momento sagrado da companhia do outro. Foi necessário que nos enclausurássemos para refletirmos sobre tantos aspectos da vida, para mudanças que urgem por se materializarem em nosso cotidiano, para os reais valores e as reais necessidades, para darmos a devida atenção do que estava sendo deixado de lado. E paradoxalmente só abrimos os olhos para as grandes verdades da vida diante de um estremecimento estrutural. Espero que este momento solipsista seja propulsor de uma reforma individual e promova grandes mudanças coletivas e isto vale para todos nós, reitero. Talvez depois desta pandemia possamos priorizar o que é essencial para nós e para a humanidade também. Enquanto isto, estamos assim, como crianças que somos, na “cadeirinha do pensamento” para refletirmos sobre todo este caos que, queiramos ou não teima em existir dentro de cada um de nós e externalizando lá fora.

Autora
Soraya Rodrigues de Aragão
Psicóloga, Psicotraumatologista, Expert em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde. Autora em 4 livros publicados. Escritora em vários portais, jornais e revistas no Brasil e exterior.

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