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Algumas pessoas acreditam que a vida, o mundo, os outros, a família ou qualquer outra pessoa possam algum dia ressarcir algo que fizeram ou deixaram de fazer. Não estou em momento algum invalidando o sofrimento ou deixando de legitimar as experiencias sofridas pelas pessoas, suas privações emocionais, afetivas, existenciais e até mesmo materiais. Contudo, esperar que o mundo nos compensará de alguma maneira pode se converter em uma espera infrutífera, e nessa postura, ninguém avança, ninguém cresce, ninguém prospera. Precisamos dar o primeiro passo para a mudança, sejamos protagonistas do nosso próprio autodesenvolvimento.

Imagem: Pixabay

Caso nos agarremos a essa justificativa de que a vida e as circunstâncias nos devem algo, não sairemos da estaca zero na incansável espera por uma “indenização”. Estas palavras podem parecer duras em um primeiro momento, mas é nessa dinâmica que a vida funciona e no decorrer dessa leitura fará todo sentido para você.

Muitas pessoas relatam que não receberam o amor e o suporte que precisavam, que tudo foi conquistado com muito esforço, a suor e sangue e que mesmo assim não foram valorizadas. A questão é que os outros, a família ou quem quer que seja fizeram e deram o que podiam fazer e oferecer, de acordo com as condições e maturidade da época, de acordo com seu grau de consciência, bem como das crenças e modelos que tinham, e na maioria das vezes crenças disfuncionais, modelos e comportamentos transgeracionais, aqueles que passam de pais para filhos. Aquilo era a única coisa que podia entregar.

Concordo que uma pessoa que nasceu em condições precárias e em um lar desestruturado não terá inicialmente a mesma vida de uma pessoa que nasceu em condições estruturadas, em um lar funcional e com pessoas “equilibradas”. Mas viver é construir-se o tempo todo, é (re) fazer-se o tempo todo, é cair e levantar quantas vezes forem necessárias. A vida não nos dá nenhuma garantia de nada, viver é uma caixinha de surpresas, é se arriscar o tempo todo, é (re)nascer o tempo todo. As coisas podem ou não “vingar” e está tudo ok, não há necessidade em se torturar incessantemente. Até mesmo porque nem adianta. Recomece com mais experiencia e maturidade mais uma vez, e outras, quantas forem necessárias.

Foto de Andrea Piacquadio no Pexels

 

Sobre o argumento de “fazer as pazes com você e com a vida”, trago 3 questionamentos importantes para esta reflexão

 

1- Autorresponsabilidade:

Precisamos assumir a responsabilidade das mudanças que precisam ser feitas em nossas vidas e isso inclui: nossas escolhas, do que fazemos da nossa vida, do que somos, com quem estamos e do que estamos fazendo neste mundo. Podemos ter sido vítimas de um passado malogrado, de abusos, de pessoas injustas e egoístas. Nesse contexto, podemos não ter tanto livre-arbítrio assim, visto que muitas escolhas são inconscientes, enquanto outras fugiram “completamente” do nosso controle, mas inconscientes ou não, tendo controle ou não, indiscutivelmente responderemos por cada atitude, por cada escolha e por cada decisão que tomarmos, por isso a importância do autoconhecimento, da autorresponsabilidade e do empoderamento. Quanto mais autoconhececimento, mais livre-arbítrio teremos.

O que precisamos questionar é: será que não fomos invigilantes, permissivos demais ou até mesmo autossabotadores? A partir do momento em que se é conivente com uma situação desconfortável, a responsabilidade não é somente do outro ou das circunstâncias. Não estou dizendo em momento algum que você não deve lutar por seus direitos caso tenha sido lesado por alguém. O que quero dizer é que a postura de “braços cruzados” não irá mudar nada. Dificilmente as pessoas lutarão por suas causas, por seus ideais, por sua reconstrução. Quem precisa fazer por você é você mesmo e caso não dê conta sozinho, peça ajuda. Contudo, geralmente esse movimento irá partir de você mesmo.

2- Sobre esforços, insatisfações e expectativas:

Algumas pessoas reconhecerão seus esforços, outras não. Em algumas circunstâncias, a vida te premiará, em outras, não. Deste modo, é muito importante rever como lidamos com nossas expectativas e por este motivo, precisamos colocar sempre uma “causa maior” em tudo o que fizermos. Não adiantará de nada remoer o que deu errado ou o que não aconteceu, pois somente um posicionamento decisivo e funcional mudarão as circunstancias. E sim, nos depararemos com muitos “SINS” e “NÃOS” da vida e em caixa alta. Precisamos estar preparados para ambos.

3- Não adianta brigar com a vida:

Não adianta brigar com a vida, caso você não tenha recebido dela o que queria, os pais que precisava, a família que desejava, o padrão socioeconômico que necessitava. O que vale é o que você faz disso tudo agora no momento presente através da sua consciência, maturidade e posicionamento para a MUDANÇA. Mais uma vez corroboro que são legítimos todos os sofrimentos advindos de experiencias que lhe causaram perdas e traumas. Tudo isso precisa ser trabalhado, mas a mudança somente acontece quando abrimos mão do papel de vítima, nos oferecemos aquilo que os outros não nos ofereceram e ressignificamos a nossa vida. Fácil? Não, mas é possível e mais que tudo, esta postura de proatividade nos fará sentir responsáveis e empoderados em mudar a vida que é sobretudo de nossa responsabilidade.

Lembre-se: Não permita que nenhuma circunstância estagne sua vida e seu crescimento. Caso tenha sofrido traumas de infância, situações constrangedoras, o importante é curar as feridas emocionais. Apenas se lamentar das circunstâncias ou do que a vida ofereceu ou não até agora, não vai levar a lugar algum. Esse é o momento de rever sua vida, do que de fato você pode fazer para se ajudar agora. Ressignifique sua história.

Autora
Soraya Rodrigues de Aragão
Psicóloga, Psicotraumatologista, Expert em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde. Autora em 4 livros publicados. Escritora em vários portais, jornais e revistas no Brasil e exterior.

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