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Tem dias que são daqueles. Você já acorda apreensivo porque de tão cansado(a) não ouviu o despertador. Então, você se levanta às pressas, toma café e já sabe que vai encarar aquele trânsito das 7 da manha para ir ao trabalho. E como não fosse o suficiente, ainda chove e por conta disso, o trânsito atrasa ainda mais. Você chega mega atrasado(a) e encontra o chefe com cara de bronca. Seu corpo joga adrenalina e mais noradrenalina. “E por muito, muito pouco”, você não contém mais a raiva e esbraveja porque topou em um móvel. Mas acredite, não foi por muito pouco. Processos cognitivos e bioquímicos já estavam acontecendo no seu corpo desde o primeiro gatilho sem que você se desse conta.

Essas histórias corriqueiras parecem “filme de terror”, mas para contextualizar situações em que a raiva ocorre, não tem outro jeito, precisam estar associadas a situações de estresse.

Saiba aqui o que é o estresse e como lidar: Como lidar com o estresse

Essa história fictícia foi uma situação pontual, mas tem pessoas que fazem da raiva uma rotina e por conta disso, estão propensas a desenvolver uma série de problemas psicossomáticos.

O que é a raiva?

A raiva é uma das 4 emoções inatas, ou seja, já nascemos com elas e estas apresentam função de sobrevivência e portanto, não precisam ser aprendidas. Muitas pessoas pensam que a raiva é uma emoção “negativa”, mas isso não é verdade. A raiva, quando disfuncional, é prejudicial e destrutiva, mas na “dosagem funcional” é esta emoção que sinaliza quando estamos sendo injustiçados, com os direitos lesados ou quando nos sentimos frustrados, mobilizando-nos para a ação no intuito do restabelecimento da nossa integridade que está sendo ameaçada. Partindo do pressuposto de que não existe emoção negativa, nem positiva, mas funcional e disfuncional, vamos exemplificar a alegria. Esta emoção nos proporciona otimismo e bem estar, mas, quando excessiva, se configura como euforia, o que já não teria função de sobrevivência, não seria funcional, pois nesse estado, a pessoa perde a noção da realidade, podendo fazer compras excessivas ou débitos que nem ela mesma sabe como irá saldar. A euforia inclusive faz parte da sintomatologia de alguns transtornos psiquiátricos, como na fase de mania do Transtorno Bipolar, por exemplo.

Foto de SHVETS production no Pexels

Saiba o que é o Transtorno Bipolar aqui: Transtorno Afetivo Bipolar (TAB)

Portanto, reitero que nao existe emoçao negativa ou positiva, mas funcional ou disfuncional. Até mesmo o veneno de cobra, se utilizado na dosagem correta é benéfico, pois é feita a vacina. E o remédio se usado além da dosagem pode causar intoxicaçao.

Mas, quando a raiva é excessiva, o que fazer?

A raiva excessiva traz prejuízos à saúde física e psíquica, bem como é prejudicial no convívio social da pessoa. Isso acontece porque na raiva são acessadas memórias emocionais e como já foi dito, é lançada uma grande quantidade de adrenalina na corrente sangüínea. Conseqüência disto: gera estresse com toda a carga fisiológica de taquicardia, tensão muscular, sudorese, dentre outros. No aspecto emocional elicia rancor, ressentimento e mágoa. Em casos extremos, abre espaço para o ódio e a ira e como conseqüência, comportamentos impensados de vingança e agressividade que posteriormente abrem espaço para arrependimento, culpa, vergonha e ressaca moral. Um momento de ira pode finalizar um relacionamento ou precipitar a saída de um trabalho. Outras pessoas “descontam” sua raiva na primeira pessoa que encontram, extravasando essa raiva no trânsito, na fila do banco, etc.

Do mesmo modo, também não é aconselhável “engolir a raiva”, pois esta pode se expressar de várias formas, desde insonia até problemas psicossomáticos. Vale a pena salientar que quando a raiva é corriqueira, pode desencadear transtornos depressivos e ansiosos, causar problemas cardiovasculares e gastrointestinais. Deste modo, no ritmo de vida que levamos hoje, é mais que necessário aprender a manejar a raiva para que seja promovida qualidade de vida psicofísica e social.

Lembre-se: não podemos controlar a raiva, mas podemos aprender a manejá-la.

Para este intuito, elaborei 7 dicas de como administrar a raiva. Vamos conferi-las?

1- Conhecer e trabalhar memórias dolorosas e conflitos internos:

Todos apresentamos memórias emocionais e em alguns casos, estas trazem consigo uma vivência que foi difícil de ser administrada no passado, permanecendo como algo que não foi elaborado, sendo importante um processo psicoterapêutico. Diante de situações semelhantes do passado e que evocam situações de falta de controle, de rejeição, de abandono, de frustração, de decepção, a maioria das pessoas tendem a se comportar com raiva, muitas vezes confundindo essa emoção com a mágoa e a frustração, por exemplo.

O primeiro passo no manejo da raiva é reconhecer que você está sentindo esta emoção – e você não é uma pessoa má por isso- para que possa trabalhar/modelar um novo funcionamento do manejo emocional em contextos que eliciem a raiva. Subjacente à raiva encontram-se precariedade na administração do estresse e da impulsividade, bem como conteúdos que precisam ser reconhecidos e trabalhados, pois tão importante quanto manejar a raiva é saber porque esta se manifesta de maneira exacerbada corriqueiramente, visto que algumas pessoas já acordam de mau humor com tendência a conflitos.

Vale a pena salientar que o mal humor é uma forma “mascarada” da manifestação da raiva, apresentando-se de forma mais velada.

2- Trabalho de regulação emocional:

Este é um trabalho que objetiva modular as reações emocionais e uma das técnicas iniciais é a exposição gradual a situações ou contato com esta emoção através da revivescência de situações na história de vida do paciente que geraram raiva, onde a partir de comportamentos exacerbados, a pessoa teve conseqüências negativas importantes na sua vida, como perda de emprego, de um amor, de pessoas importantes e que ocasionaram problemas nos vínculos e com regras sociais, por exemplo. Na regulação emocional também são trabalhados pensamentos disfuncionais e distorções cognitivas, de modo que a pessoa possa reavaliar suas emoções e condutas diante destas. Estes são alguns dos procedimentos utilizados nesta técnica. Este trabalho é delicado e precisa ser supervisionado por um profissional da Psicologia.

Foto de Liza Summer no Pexels

3- Trabalho da impulsividade:

Na maioria das vezes, a raiva vem associada com a impulsividade, do impulso à ação. Os estragos na vida da pessoa podem ser significativos. As técnicas para lidar com a impulsividade estão diretamente relacionadas com técnicas de regulação emocional e parte da reflexão das conseqüências da impulsividade na vida prática da pessoa desde problemas com sua saúde física e emocional, com a imagem que é passada em seu meio social e as perdas que ela tem e teve no decorrer da vida por agir no “calor das emoções”. Também é necessário trabalhar a culpa, a vergonha e a autoestima do paciente.

Veja bem: o objetivo não é o paciente deixar de ser dinâmico, proativo ou mesmo deixar de tomar medidas necessárias em tempo hábil. A proposta aqui é regular a impulsividade que trazem conseqüências indesejáveis, é ponderar antes de agir. Quando a raiva se apresenta em ataques de ira recorrentes, é necessário avaliar a possibilidade do paciente ter o Transtorno Explosivo Intermitente (TEI).

Saiba o que é o Transtorno Explosivo Intermitente (TEI) aqui: Transtorno Explosivo Intermitente (TEI)

4- Percepção dos acontecimentos:

Treinar com o paciente um novo olhar diante dos fatos, pois é a percepção do acontecimento e não o acontecimento em si que gera raiva. Por exemplo: Uma pessoa está de volta do trabalho, com um trânsito engarrafado, o que gera mais raiva, que gera mais estresse, como num círculo vicioso. Uma outra pessoa simplesmente pode aproveitar o engarrafamento, pegar seu japamalla e fazer seu mantra 108 vezes e ainda agradecer por ter tido tempo para fazer isso. Percebeu a diferença? Como se percebe os fatos.

5- Mindfulness:

O Mindfulness significa, em linhas gerais o exercício da atenção plena, em focar no aqui e agora, promovendo a conscientização e a compreensão dos próprios estados emocionais, o que favorece o autoconhecimento e conseqüentemente o manejo das próprias emoções. Além da parte emocional, o Mindfulness também ajuda a ter mais paciência, aumenta o foco, a performance e a produtividade.

6- Mudanças na rotina:

Verificar como é a rotina, como é e se de fato é organizada, ou se a pessoa deixa para fazer tudo às pressas, na última hora. Importante também verificar os hábitos do paciente dentro desta rotina, bem como os relacionamentos e a qualidade destes. Refletir como é o relacionamento no trabalho, na família, com o cônjuge, com os filhos. Ocorrem muitos conflitos familiares, no trabalho? Por quais motivos? O que fazer para dirimir estes conflitos e melhorar a qualidade da relação?

7- Outras técnicas adicionais:

Técnicas de respiração, Ioga, tirar o foco da raiva naquele momento também podem ajudar (o famoso contar até 10 antes de agir por impulso). Estas técnicas adicionais não explicam os rompantes de raiva, tampouco promovem a elaboração de um novo repertório comportamental para lidar com situações estressantes. Somente um processo de reflexão profunda, autoconhecimento, extinção de repertorio disfuncional e modulação de comportamentos funcionais e assertivos trarão resultados eficazes e duradouros. A questão precisa ser compreendida e solucionada a partir da raiz, através da psicoterapia e suas técnicas especificas.

Autora
Soraya Rodrigues de Aragão
Psicóloga, Psicotraumatologista, Expert em Medicina Psicossomática e Psicologia da Saúde. Autora em 4 livros publicados. Escritora em vários portais, jornais e revistas no Brasil e exterior.

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